Consultoria: metas de entrega num negócio que vende hora

Por Érico Rodrigues5 min de leitura
Compartilhar este artigo

Numa consultoria, o gargalo é capacidade, não demanda: vender mais do que se entrega piora o resultado. Os dois indicadores que decidem são taxa de utilização (quanto do tempo da equipe é faturável) e margem por projeto. Perseguir faturamento sem olhar os dois produz uma consultoria ocupada e sem lucro.

Utilização não é para ser maximizada

Taxa de utilização é o percentual do tempo da equipe que é faturável. Parece que quanto maior melhor, e não é: acima de 85% não sobra folga para imprevisto, e todo atraso de um projeto vira atraso em três outros.

Também não sobra tempo para o que a consultoria precisa e não fatura: proposta, desenvolvimento de método, formação da equipe e relacionamento. Uma consultoria a 95% de utilização está consumindo o próprio futuro para entregar o presente.

IndicadorO que revelaFaixa saudável
Taxa de utilizaçãoQuanto do tempo é faturável70% a 82%
Margem por projetoQual contrato dá lucroAcima de 30%
Horas previstas contra realizadasQualidade do escopo vendidoDesvio abaixo de 20%
Receita recorrente sobre totalPrevisibilidade do negócioQuanto maior, melhor
Concentração no maior clienteRiscoAbaixo de 30%
Prazo de recebimentoCaixa, que é o que quebra consultoriaAbaixo de 30 dias
Os indicadores, e a faixa que costuma funcionar

O escopo mal definido é a causa da margem negativa

Projeto que consome o dobro das horas previstas quase nunca teve problema de execução: teve problema de definição. O que estava incluído e o que não estava ficou implícito, e o cliente e a consultoria entenderam coisas diferentes.

Medir horas previstas contra realizadas, por projeto, torna isso visível cedo. E o padrão costuma se repetir por tipo de projeto ou por quem vendeu, o que transforma um problema difuso numa correção específica de proposta.

Cuidado com o projeto grande que estoura escopo e não é interrompido porque o cliente é importante. Ele consome a capacidade que atenderia dois projetos rentáveis, e o custo de oportunidade nunca aparece em relatório nenhum.

Metas para um negócio limitado por capacidade

  • Elevar a margem média por projeto de 18% para 34% até 31/03
  • Reduzir o desvio entre horas previstas e realizadas de 41% para 15%
  • Elevar a receita recorrente de 12% para 35% do total
  • Reduzir a concentração no maior cliente de 44% para 25%
  • Manter a utilização entre 72% e 82%, saindo dos atuais 94%
  • Reduzir o prazo médio de recebimento de 54 para 30 dias

Os números são ilustrativos. Troque cada um pelo seu, e note que a utilização é o único da lista escrito como FAIXA: nele, sair do valor atual para baixo é a melhoria, e escrevê-lo como meta de máximo produz exatamente o problema que se quer resolver.

O quinto é escrito como faixa, e não como meta de aumento, de propósito. É um dos poucos indicadores em que sair do valor atual para BAIXO é a melhoria, e escrevê-lo como meta de máximo produziria exatamente o problema que se quer resolver.

Recorrência muda a economia

Projeto novo exige proposta, negociação, imersão no contexto do cliente e curva de aprendizado da equipe. Projeto de continuidade com o mesmo cliente elimina quase tudo isso, e a margem sobe sem que nada mude na execução.

Por isso o percentual de receita recorrente costuma ser o indicador de maior efeito de médio prazo numa consultoria, e ele é construído durante o projeto, não depois: o que gera continuidade é o cliente ver resultado no meio do caminho, não no relatório final.

Perguntas frequentes

Como medir utilização numa consultoria pequena?
Apontamento simples por pessoa, dividindo o tempo entre projetos, comercial e interno. Não precisa ser detalhado por atividade: a divisão em três categorias já produz o indicador e revela quanto tempo está indo para o que não fatura, que é a informação que muda decisão.
Consultoria deve ter meta de vendas?
Deve, com um par de capacidade. Meta de venda sem olhar utilização produz o pior cenário da consultoria: contrato assinado sem quem entregue, atraso em cascata e perda de cliente antigo para atender o novo. Vender é fácil quando não se olha se cabe.
Preço fechado ou por hora?
Preço fechado transfere o risco de escopo para a consultoria, e por isso exige medir horas realizadas mesmo sem faturá-las. Sem esse controle, um contrato fechado com escopo mal definido pode consumir três vezes o previsto e ninguém percebe até o fechamento do projeto.

O nome disto, e provavelmente você já ouviu

O que está descrito acima, escolher poucos números, dar um dono a cada um, dizer de onde ele sai e aonde precisa chegar, e olhar toda semana, é o método que se chama OKR. O nome importa pouco para quem toca a consultoria no dia a dia. Ele importa se você quiser procurar mais material, ou explicar para os sócios por que três meses e não um ano.

E a resposta sobre o trimestre é prática, não teórica: três meses é longo o bastante para mover um número de verdade e curto o bastante para o time ainda lembrar o que combinou. Um ano vira carta de intenções; um mês vira lista de tarefas com nome bonito. Se o próximo passo for implantar, o cronograma de 30 dias tem o que fazer em cada semana.

Compartilhar este artigo

Continue por aqui