Consultoria: metas de entrega num negócio que vende hora
Numa consultoria, o gargalo é capacidade, não demanda: vender mais do que se entrega piora o resultado. Os dois indicadores que decidem são taxa de utilização (quanto do tempo da equipe é faturável) e margem por projeto. Perseguir faturamento sem olhar os dois produz uma consultoria ocupada e sem lucro.
Utilização não é para ser maximizada
Taxa de utilização é o percentual do tempo da equipe que é faturável. Parece que quanto maior melhor, e não é: acima de 85% não sobra folga para imprevisto, e todo atraso de um projeto vira atraso em três outros.
Também não sobra tempo para o que a consultoria precisa e não fatura: proposta, desenvolvimento de método, formação da equipe e relacionamento. Uma consultoria a 95% de utilização está consumindo o próprio futuro para entregar o presente.
| Indicador | O que revela | Faixa saudável |
|---|---|---|
| Taxa de utilização | Quanto do tempo é faturável | 70% a 82% |
| Margem por projeto | Qual contrato dá lucro | Acima de 30% |
| Horas previstas contra realizadas | Qualidade do escopo vendido | Desvio abaixo de 20% |
| Receita recorrente sobre total | Previsibilidade do negócio | Quanto maior, melhor |
| Concentração no maior cliente | Risco | Abaixo de 30% |
| Prazo de recebimento | Caixa, que é o que quebra consultoria | Abaixo de 30 dias |
O escopo mal definido é a causa da margem negativa
Projeto que consome o dobro das horas previstas quase nunca teve problema de execução: teve problema de definição. O que estava incluído e o que não estava ficou implícito, e o cliente e a consultoria entenderam coisas diferentes.
Medir horas previstas contra realizadas, por projeto, torna isso visível cedo. E o padrão costuma se repetir por tipo de projeto ou por quem vendeu, o que transforma um problema difuso numa correção específica de proposta.
Cuidado com o projeto grande que estoura escopo e não é interrompido porque o cliente é importante. Ele consome a capacidade que atenderia dois projetos rentáveis, e o custo de oportunidade nunca aparece em relatório nenhum.
Metas para um negócio limitado por capacidade
- Elevar a margem média por projeto de 18% para 34% até 31/03
- Reduzir o desvio entre horas previstas e realizadas de 41% para 15%
- Elevar a receita recorrente de 12% para 35% do total
- Reduzir a concentração no maior cliente de 44% para 25%
- Manter a utilização entre 72% e 82%, saindo dos atuais 94%
- Reduzir o prazo médio de recebimento de 54 para 30 dias
Os números são ilustrativos. Troque cada um pelo seu, e note que a utilização é o único da lista escrito como FAIXA: nele, sair do valor atual para baixo é a melhoria, e escrevê-lo como meta de máximo produz exatamente o problema que se quer resolver.
O quinto é escrito como faixa, e não como meta de aumento, de propósito. É um dos poucos indicadores em que sair do valor atual para BAIXO é a melhoria, e escrevê-lo como meta de máximo produziria exatamente o problema que se quer resolver.
Recorrência muda a economia
Projeto novo exige proposta, negociação, imersão no contexto do cliente e curva de aprendizado da equipe. Projeto de continuidade com o mesmo cliente elimina quase tudo isso, e a margem sobe sem que nada mude na execução.
Por isso o percentual de receita recorrente costuma ser o indicador de maior efeito de médio prazo numa consultoria, e ele é construído durante o projeto, não depois: o que gera continuidade é o cliente ver resultado no meio do caminho, não no relatório final.
Perguntas frequentes
- Como medir utilização numa consultoria pequena?
- Apontamento simples por pessoa, dividindo o tempo entre projetos, comercial e interno. Não precisa ser detalhado por atividade: a divisão em três categorias já produz o indicador e revela quanto tempo está indo para o que não fatura, que é a informação que muda decisão.
- Consultoria deve ter meta de vendas?
- Deve, com um par de capacidade. Meta de venda sem olhar utilização produz o pior cenário da consultoria: contrato assinado sem quem entregue, atraso em cascata e perda de cliente antigo para atender o novo. Vender é fácil quando não se olha se cabe.
- Preço fechado ou por hora?
- Preço fechado transfere o risco de escopo para a consultoria, e por isso exige medir horas realizadas mesmo sem faturá-las. Sem esse controle, um contrato fechado com escopo mal definido pode consumir três vezes o previsto e ninguém percebe até o fechamento do projeto.
O nome disto, e provavelmente você já ouviu
O que está descrito acima, escolher poucos números, dar um dono a cada um, dizer de onde ele sai e aonde precisa chegar, e olhar toda semana, é o método que se chama OKR. O nome importa pouco para quem toca a consultoria no dia a dia. Ele importa se você quiser procurar mais material, ou explicar para os sócios por que três meses e não um ano.
E a resposta sobre o trimestre é prática, não teórica: três meses é longo o bastante para mover um número de verdade e curto o bastante para o time ainda lembrar o que combinou. Um ano vira carta de intenções; um mês vira lista de tarefas com nome bonito. Se o próximo passo for implantar, o cronograma de 30 dias tem o que fazer em cada semana.
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