Organograma não é enfeite: como a estrutura decide quem responde pelo resultado

Por Érico Rodrigues5 min de leitura
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O organograma serve para responder uma pergunta operacional: quem responde por este resultado, e a quem essa pessoa recorre quando trava. Ele deixa de ser enfeite no dia em que cargo, autoridade sobre a meta e permissão no sistema são três eixos separados. Confundi-los é o que produz gente com título e sem mandato.

Para que ele serve, além de bonito na parede?

Numa empresa de dez pessoas, para nada: todo mundo sabe quem faz o quê. O organograma começa a valer por volta de trinta pessoas, quando alguém entra e não sabe a quem perguntar, e vale muito acima de cem, quando duas pessoas discordam sobre quem decide algo.

A pergunta que ele responde não é hierárquica, é operacional: quando este resultado atrasar, quem tem o mandato de mudar a prioridade de alguém? Se a resposta não estiver clara, o atraso vira reunião em vez de decisão.

Os três eixos que não devem se confundir

EixoO que éO que decide
CargoAnalista, Coordenadora, DiretorNada de autoridade. Descreve a posição e ordena o desenho
Liderança de timeQuem lidera aquele timeAutoridade sobre o OKR do time
Permissão no sistemaAdmin, líder, colaborador, leitorO que a pessoa vê e edita
Gestor diretoA quem a pessoa reportaQuem avalia, quem cobra e por onde o problema escala
Cada um decide uma coisa diferente

A confusão mais cara é entre cargo e permissão. Quando a empresa decide que "toda coordenadora vê o painel financeiro", ela amarrou acesso a título, e no dia em que alguém vira coordenadora de outra área o acesso vai junto sem ninguém decidir. Cargo é descritivo; permissão é escolha, e ela precisa continuar sendo feita uma a uma.

A segunda confusão mais cara é entre cargo e liderança de time. A pessoa com o cargo mais alto não é necessariamente quem lidera o time onde ela está. Um diretor que participa de um time liderado por um coordenador é comum e saudável, e um sistema que deduz liderança do cargo transforma isso em conflito.

O campo mais consequente é o gestor direto

Ele parece cadastral e decide muita coisa: quem faz a avaliação de desempenho de quem, para onde escala um problema, quem recebe o pedido de férias, e quem é cobrado quando um resultado atrasa.

E ele tem um modo de falha silencioso: pessoa sem gestor definido não aparece em nenhuma lista derivada. Ela some do organograma, não entra na geração de avaliações, e ninguém recebe erro. Descobre-se meses depois, quando alguém pergunta por que fulano nunca foi avaliado.

Quando a estrutura precisa de um nível acima dos times

Times funcionam bem até uns cinco ou seis por empresa. Acima disso, a liderança começa a acompanhar quinze ou vinte resultados-chave diretamente, e isso não cabe na cabeça de ninguém.

O nível intermediário (diretoria, unidade, o nome muda) existe para agrupar, e ele precisa de duas coisas para não virar burocracia: ter OKR próprio, e não só somar os dos times abaixo; e ter autoridade real de mudar prioridade, não só de pedir relatório.

Um cuidado ao comparar desempenho: uma diretoria não entra no mesmo ranking dos times que ela dirige. Somar os dois conta o mesmo trabalho duas vezes, e a diretoria sempre aparece na frente por construção, o que não significa nada.

Organograma desatualizado é pior que nenhum

Porque ele afirma coisas erradas com aparência de autoridade. Alguém novo consulta, procura a pessoa que saiu há quatro meses, e conclui que a empresa é desorganizada antes de ter conhecido ninguém.

A saída não é disciplina de atualização, que nunca acontece. É o organograma ser derivado do que já é mantido por outro motivo: quem está em qual time, quem lidera, quem reporta a quem. Desenho que se desenha sozinho a partir do cadastro está sempre certo; desenho feito à mão está sempre desatualizado.

Perguntas frequentes

Empresa pequena precisa de organograma?
Abaixo de vinte pessoas, quase nunca. O que costuma valer bem antes disso é o campo de gestor direto preenchido, porque ele resolve avaliação, escalonamento e férias sem exigir desenho nenhum. O desenho vira útil quando alguém entra e não sabe a quem perguntar.
Organograma por time ou por hierarquia?
Os dois respondem perguntas diferentes e vale ter os dois. A hierarquia responde quem reporta a quem; o desenho por time responde quem trabalha com quem, que é o que importa no dia a dia. Numa empresa matricial, o segundo costuma ser mais usado que o primeiro.
Cargo deve ser global ou por empresa?
Por empresa, se a mesma pessoa pode participar de mais de uma. A mesma pessoa é Diretora numa e Consultora noutra, e um cargo global obriga a escolher um dos dois como verdade. Também importa que a escrita do cargo seja restrita: cargo autoeditável perde qualquer valor descritivo.
Quantos níveis uma empresa de 100 pessoas deve ter?
Três costumam bastar: liderança, times e pessoas. O quarto nível aparece quando um líder passa de sete ou oito subordinados diretos, e aí o problema real é a amplitude de comando, não o desenho. Acrescentar nível para arrumar o desenho sem resolver a amplitude só move o problema.
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